sábado, 12 de agosto de 2017

JON RONSON: SO YOU'VE BEEN SHAMED


Ronson escreveu várias reportagens, que vieram sendo publicadas numa série de livros identificáveis pela composição gráfica e pela caricatura estilizada do autor, praticamente reduzida ao cabelo espetado e aos óculos redondos.

A sua escrita é simples, eficaz e divertida. Os temas chamam, de facto, por nós: há aquele a partir do qual se fez um filme estranho sobre homens com "alegados" poderes psíquicos, utilizados pelo Exército; um outro sobre a natureza e a banalidade do psicopata (banalidade num sentido não estranho ao que Arendt emprega, quando se refere à banalidade do Mal: escusamos de procurar sempre o torturador ou o assassino em série: esses seriam os psicopatas incomuns. Se falamos de um traço
de carácter, mais vulgar do que julgaríamos, então o psicopata pode ser o meu vizinho, ou um professor que tive, ou porventura o meu patrão, senão eu mesmo...); ou este livro, acerca da vergonha e da humilhação públicas.

Uma considerável parte do humor de Ronson tem que ver com a improbabilidade de certas personagens que entrevista, ou de situações absurdas em que essas personagens o puseram. A sua passagem por uma clínica da sinceridade como único meio de defesa contra a vergonha é hilariante. Depois, pensamos melhor. Isto são os EUA, que diabo! A mesma América que elegeu Trump: o que há de improvável nesses idiotas?

Jonah Lehrer (de quem tanto apreciei Proust era um Neurocientista, ainda a desgraça se não tinha abatido sobre o Autor), Julia Sacco ou Lindsay Stone são três exemplos, entre outros, de pessoas que nunca mais recuperaram a sua vida, por efeito de erros, seus, que a multidão anónima das redes sociais nunca perdoou. Os casos não são similares: Lehrer foi apanhado a inventar ou a distorcer frases de Dylan, como se as citasse. Inquirido sobre a exacta proveniência dessas citações, por um jornalista céptico e manhoso, mentiu sucessivamente. Exposto, foi sujeito a um vexame sem precedentes. Mas Sacco ou Stone são vítimas de afirmações que não mediram - as quais, porém, uma vez registadas em tweet, nunca mais as largariam, ou largarão. E "nunca mais as largarão" significa que já perderam muito do que é importante na vida de um adulto. Refiro-me a haverem sido despedidas, ficarem sem amigos ou ao afastamento da família mais próxima. Ainda hoje: escrevam-lhes os nomes no Google, e verão. Lá está a triste história de cada uma. Todos eles, Lehrer incluído, marcados para sempre.

A análise de Ronson nunca é profunda, mas toca aspectos que nos assustam e obrigam a pensar. A sua visão não está construída desde o início: altera-se à medida que sonda o tema, e que entrevista mais alguém capaz de acrescentar uma informação ou uma experiência; e essa autenticidade da sua busca, a coragem de questionar os seus próprios preconceitos, sempre na mira de uma coerência ética, não são pormenores despiciendos no interesse deste livro.

sábado, 29 de julho de 2017

RAYMOND RADIGUET: COM O DIABO NO CORPO

    
     «Na minha irrequieta juventude de estudioso», escreve Umberto Eco, num livro a que nunca me canso de regressar, Seis Passeios nos Bosques da Ficção, «serviu-me de exemplo e deu-me conforto saber que Kant havia escrito a sua obra-prima filosófica com a venerável idade de cinquenta e sete anos, tal como senti uma terrível inveja quando constatei que Raymond Radiguet escreveu Le Diable au Corps com apenas vinte

     Com o Diabo no Corpo se denomina, em português, o romance traduzido e publicado pela Relógio d'Água em 2009. Compreendemos a inveja de Umberto Eco. A inveja e também uma surpresa implícita nas suas palavras: Radiguet concilia, nesta obra, a candura emocional (e o espantoso egoísmo) do jovem que era, e a profundidade intelectual e poética de um autor da família de Rimbaud, Verlaine ou Céline. Aquela limpidez de expressão, em que não se nota o menor esforço, e onde sobressaem passagens fulgurantes, não parece propriamente a de um garoto no início da sua experiência literária. É o tom perfeito para a narração do crescimento do menino neurasténico, inteligente mas sem quase amigos, que descobre o amor - a paixão, l'amour fou, que não hesita em viver até ao limite, a despeito de tudo e contra todos, e mesmo como traição.

Leio esta narrativa como um ensaio metódico e profundo sobre o amor e a sua radical interferência na razão moral do sujeito, reduzindo drástica e egoisticamente o leque de escolhas àquelas que sirvam e protejam a relação. Tudo o mais perde importância, torna-se irrelevante. Não há outras pessoas, outras razões, outros interesses, nada mais. Como o jovem narrador é de uma franqueza absoluta consigo mesmo e com o leitor (como, aliás, com ninguém mais: nem com a amada, muito menos com o marido desta ou com os próprios pais), aquilo a que assistimos é a uma fascinante fenomenologia das emoções que o movem, os jogos psicológicos a que se entrega, as dúvidas acerca das razões dos seus actos ou, até, acerca da autenticidade e da constância do seu amor, os surtos de piedade ante o mal que provoca, o reconhecimento de uma perversidade gratuita.

Há, ao mesmo tempo, ao longo da leitura do romance, um angustiante desconforto que persegue persistentemente o leitor. Não: não diria que advém do contacto com a encarnação do mal. Mais rapidamente apostaria no desconforto de identificarmos, no despudorado strip-tease do protagonista, a exposição da nossa íntima impureza.        

terça-feira, 18 de julho de 2017

FRANZ KAFKA: O CASTELO



«O senhor interpreta tudo mal, mesmo o silêncio.»
Franz Kafka, O Castelo



Kafka é um autor imprescindível. O Processo e A Metamorfose são romances que não podemos deixar de ler, que teremos necessariamente de reler, porque se nos revelam diferentemente em diferentes idades da vida, e que penetram em nós - perdão pelo jogo fácil e óbvio - metamorfoseando-nos, de facto, emocional e intelectualmente.

O Castelo foi lido, por mim, numa antiga edição da Livros do Brasil, era eu, então, um jovem angustiado e inquieto. Devo dizer que, dramaticamente impressionado por O Processo, e em segundo lugar por A Metamorfose, tomei O Castelo, de certa forma, por mais do mesmo. Duro e complexo, ainda desassossegador, é claro, mas sem o poder da surpresa terrível e fatal que encontrara nos anteriores e, evidentemente, já não encontramos quando estamos preparados.

Releio-o agora, e percebo que certos autores não devem ser devorados numa única fase, porque existe um efeito de contaminação de uma sua obra sobre outra, que faz com que vamos lendo as seguintes como réplicas ligeiramente modificadas das anteriores. Ao mesmo tempo, dizê-lo não pode deixar de ser uma inutilidade: certas descobertas contêm, como imperativo categórico, o esgotamento do autor que viemos de descobrir, a busca insaciável de tudo o que possamos ler dele. Não faz mal. Haverá sempre tempo para uma releitura tardia deste ou daquele texto específicos.

As personagens de O Castelo estão imbuídas daquele perverso tom onírico que aprendemos a designar por kafkiano: os aldeões confundem-se, como uma espécie de massa que segue o agrimensor, observando as suas reacções e tentativas, com um misto de curiosidade e troça. Mas, para além deste interesse dedicado ao forasteiro, como a um cómico num lugar com poucos meios de entretenimento, nada verdadeiramente lhes parece espantoso na sua situação - uma das características da obra kafkiana é o estranho erigido em normal. Em última análise, o próprio agrimensor não se questiona metafisicamente: é um profissional contratado, que tem, por objectivo, chegar ao castelo cujos proprietários requereram os seus serviços, e que, como em certos pesadelos, não consegue lá chegar; irrita-se, procura quem o guie, usa de astúcia, mas sempre em vão. Porém, em nenhum momento vê, no que lhe sucede (ou não sucede), uma ilustração da condição humana, ou do absurdo da existência.

Há, contudo, uma dimensão metafísica neste impedimento contínuo e absurdo. Sartre referia-se-lhe, certeiramente, no prefácio que redigiu para O Estrangeiro, de Albert Camus. Considera Sartre, nisso se demarcando dos críticos que viam, em Camus, «Kafka a escrever como Hemingway», primeiramente: que a escrita de Camus nada tem, na sua essência, que ver com a hemingwayana: a brevidade dos períodos daquele seria totalmente artificial; uma deliberada contenção para provocar um certo efeito, de que, no entanto, às vezes pareceria esquecer-se, resvalando para o excesso de palavras. Em segundo lugar, quanto a Kafka: outro equívoco, porque de Albert Camus estaria ausente, precisamente, o absurdo metafísico. Em Kafka, dir-se-ia que o universo está carregado de misteriosos sinais, que nem sempre entendemos, como se o negar da realização e do contentamento dos seus protagonistas dependesse de alguma entidade (entidades, na verdade), que transcende(m) a sua e a nossa inteligência. Que acentua(m)  a sua e a nossa insignificância. Não se trata só de se ser o joguete de forças ocultas: mas de se ser o joguete de forças desconhecidas, num jogo incompreensível, e cujas regras nos serão para sempre inacessíveis. 

terça-feira, 27 de junho de 2017

MARCEL PROUST: O EPISÓDIO DA MADALENA




Em Proust, a celebérrima passagem da madalena, mencionada, até, por quem nunca haja lido A la Recherche, é, de facto, nos seus pormenores ínfimos (tratando-se precisamente de um texto confeccionado, todo ele, em pormenores), um dos pontos supremos da Literatura.

Retomo-o de memória, certamente com lapsos. Conta o narrador, Marcel, que uma tarde em que chegara, fatigado, a casa, a mãe lhe perguntou se lhe apetecia um chá. Num primeiro momento, respondeu que não. (A sua referência a esta resposta gratuita e dispensável na economia do texto é simplesmente encantadora). Repensando, aceitou. E fora-lhe servido um chá acompanhado de uma madalena.

A madalena de que Marcel nos fala nada tem que ver com o bolo a que os portugueses dão o mesmo nome. É, antes, uma espécie de biscoito, minuciosamente descrito pelo autor, com estrias e em forma de concha. Quando o jovem molha um pedaço da madalena no chá e o saboreia, dá-se imediatamente uma epifania: não unicamente pela intensidade do sabor, em si mesmo, mas porque este traz vagamente incorporado o pressentimento de uma outra dimensão, como uma vivência havida e entretanto olvidada, uma reminiscência magnífica, mas não identificável.

Perplexo com o poder de tal experiência, Marcel repete-a. E, de novo, se opera o milagre. Um prazer que vem tanto de uma veia secreta da memória, como do paladar. Entusiasmado, o jovem decide-se, pois, a iniciar uma paciente análise, provando uma terceira vez, com o fito, quase científico, de surpreender e compreender o pleno sentido daquela sensação, de lhe alcançar as raízes. Percebia, contudo, que, à força da repetição, o efeito se ia tornando mais ténue. Banalizava-se: perdera a magia primordial. Parou, então, de insistir. Como se quisesse distrair-se; afastar do espírito a sua impaciente curiosidade por um momento, de forma a não afugentar a possibilidade de um reencontro. Bem entendido, não podemos forçar-nos a esquecer, seja o que for, por certo tempo. Não somos capazes de uma distracção intencional, encomendada. De modo que esse esforço para desviar a própria atenção devém contraproducente, quase desastroso.

Em dado momento, porém, o reencontro sucede. Ah! Como numa explosão, repentinamente, o sabor revela toda a sua história: Marcel recorda-se então de que, quando visitava a sua tia, na pequena vila em que ela vivia, muitos anos antes, a tia lhe oferecia um pedaço de madalena embebido no seu chá; eis que, de súbito, tudo lhe vem à memória: não apenas a tia, o seu cheiro, a sua cama, o seu quarto, mas toda essa casa em que passava férias na infância, e o jardim envolvente, e as ruas e os passeios e as casas e as lojas da pequena vila, e os seus habitantes, um por um, como génios que houvessem estado encerrados durante séculos no seu espírito, libertados, por fim, por aquele sabor que, uma vez recuperado tanto tempo após, lhes reconstituía, agora, o mundo e a vida.

Vou reler. Está no primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, volume que se chama, na recomendável tradução de Pedro Tamen, Do Lado de Swann.      


quarta-feira, 21 de junho de 2017

JOHN BANVILLE: OS INFINITOS



É evidente que, se usarmos como medida a maioria do que hoje se escreve, em qualquer língua (não que se não escreva muito bem, também), o estilo de Banville tem um gosto desusado, que, por mim, aprecio veementemente. É a forma, de resto, que eu próprio escolheria (se o talento me chegasse) para um romance da minha autoria: sumptuosa, contida apenas por uma lúcida elegância - a consciência de que bastaria pouco mais para se cair no pecado do excesso e do mau-gosto. Não é propriamente Agustina, porque não há quem se lhe compare; mas também não é Mário Cláudio, que ilustra, do meu ponto de vista, o mencionado pecado do excesso.
As personagens de Banville pensam. Perguntamo-nos, às vezes, se é normal. Escrevo-o sem qualquer intuito irónico. Será que pensamos assim tanto? Que nos interrogamos tão continuamente, no decorrer do quotidiano e ao longo dos nossos actos mais banais (actos como irmos à casa de banho, ouvirmos o ruído da urina na água, puxarmos o papel higiénico, e o autoclismo; ou a rebuscada curiosidade sobre o que realmente veria, da janela de um comboio que passa, o garoto fitando, insistentemente, a janela da casa em que se encontra o sujeito, neste caso Adam filho)? Precisamente: os momentos do dia-a-dia são povoados por essa espécie de vírus, as ideias minúsculas e ridículas, as irrelevantes observações de si para si, os pensamentos errantes e distraídos, que nos tornam fantasmas nas situações, ou parcialmente fantasmas: sempre, ao mesmo tempo, presentes e ausentes, como se uma parte de nós escapasse ao aqui e ao agora; como se o meu eu invisível acompanhasse a presença e a minha acção no mundo, a partir do seu mundo paralelo, com pontos de contacto com as coisas e com os outros, e pontos incontactáveis.

A quinta em que a família se reúne para se despedir de um moribundo - marido, pai, genro - é, também, um lugar povoado por outras presenças invisíveis. Falo dos deuses gregos, os Infinitos, que Banville trata com a mesma seriedade (e a mesma dogmática segurança no que respeita à evidência da sua intervenção no mundo humano) que Homero ou Camões. Que o próprio Hermes seja, aliás, o narrador, torna a construção do olhar que subjaz a este romance, uma obra-prima. Não é o olhar omnisciente de Javé: é uma consciência que conhece bem as pessoas, criaturas suas, e melhor, até, do que estas se conhecem a si próprias; mas não deixa de se surpreender ou desesperar com os seus hábitos e as suas escolhas. Também não é um olhar terno: os humanos, que não são os heróis da Ilíada, este grupo de vulgares mortais, revela, contudo, a estranha - e até certo ponto risível - invulgaridade das suas obsessões, dos seus desejos e dos seus temores. A narração de Hermes mantém-se irónica, frequentemente sarcástica. A piedade não faz parte da sua panóplia. 

A capa, a contracapa e as badanas do livro estão recheadas de mais ou menos curtas e fulgurantes afirmações acerca da obra, transcritas dos mais diversos jornais. Mais do que uma delas sublinham a ideia de que, tratando-se de uma narrativa em cujo centro se encontra a morte, nem por isso devém mórbida ou deprimente. Sei responder a essa perplexidade: por um lado, porque fala do aproximar-se da morte, mas na perspectiva de um imortal, o qual nos confessa a que ponto a mortalidade, oferecendo à vida e aos actos humanos o seu carácter frágil, valioso e intenso, se torna objecto da inveja dos deuses. É um pouco dessa intensidade, aliás, contida em tudo quanto seja passageiro, aquilo a que Zeus aspira de cada vez que se une a uma mulher mortal, que insaciavelmente deseja; por outro lado, porque o moribundo, em coma na sequência de um AVC, cultiva uma inacessível e incomunicável vida interior. No âmago do vegetal a que o velho Adam Godley, o Adam pai, aparentemente se reduziu, efervesce, porém, um mundo de sensações, ideias e memórias aprazíveis. Godley compreende o que se passa em seu redor, melhor do que qualquer um dos outros membros da sua família. Não de uma compreensão ressentida e inconformada, mas sem peso, quase sempre alegre.

Talvez desta leitura subsista, sobretudo, uma forma fina e filosoficamente irónica, leve mas não superficial, de se olhar nos olhos a morte.                           

sábado, 13 de maio de 2017

ANDRÉ GIDE: O IMORALISTA


Gide foi já mencionado por mim em anteriores comentários. Não podemos resumir nem a sua vida, nem a sua obra. Mas faço questão de apontar algumas referências que, justa ou injustamente, configuram a importância paradoxal, positiva e negativa, que teve, desde cedo, para mim.

Homossexual que, por essa razão, não intuiu o génio de A la Recherche du Temps Perdu, catalogado, por si (pelo menos inicialmente), como uma espécie de obra inimiga, cuja publicação desaconselhou, uma vez que, segundo ele, escrita por um homossexual envergonhado, apresentaria, da homossexualidade, apenas o lado sórdido e ridículo; cristão educado numa visão da secura e da inflexibilidade da regra, mas, como muitos protestantes, fascinado pela riqueza e pelo excesso próprios do cerimonial católico; entretanto, convertido por um tempo a um insensato misticismo, como forma de superar o "pecado da carne"; simpatizante do comunismo, quando acreditou aí descobrir a síntese da mais autêntica prática cristã com a lucidez do ateísmo; «antipatizante» do mesmo comunismo quando, mais tarde, visitou a URSS e percebeu, in loco, a clivagem entre a doutrina e a realidade; autor de uma escrita clássica, de que se serviu, contudo, para exprimir inovadoramente os dilemas emocionais que lhe interessavam; prémio Nobel em 1947.

Na sua relativa simplicidade e na sua brevidade, O Imoralista é uma novela em tom autobiográfico. A história de um homossexual que desposa uma mulher, com o fito de tranquilizar o próprio pai, moribundo, recorda-nos imediatamente que André Gide viveu a experiência da vida matrimonial.
A partir da ideia de uma esposa, Marceline, que no marido concentra o seu amor, a que este, Michel, corresponde assimetricamente, num afecto em que se confundem gratidão, ternura, piedade, se desenha a narração subtil e delicada de uma dissimulação e, até certo ponto, de um auto-engano.

A subtileza e a delicadeza residem, sobretudo, na própria escrita: é ambiguamente, por uma espécie de velamento, que se dá a revelação. Tudo se vai adivinhando - nada nos é mostrado. O paradoxo é, pois, o da assunção de um imoralismo (para empregar o termo que o próprio título sugere), expresso com um cuidado, um pudor e uma beleza, que formam um filtro estético; e tornam, a teoria subjacente à obra, uma teoria estética, mais do que moral.


A aproximação requerida para se compreender a teoria condutora seria a Nietzsche. [Lembro-me de inúmeras referências a um nietzschianismo em Gide, que nunca, porém, encontrara como aqui.] Entre o casamento e o culto da propriedade, por um lado, que lhe garantem uma harmonia muito semelhante à felicidade, e o apelo da natureza, por outro lado, a libertação da força e do desejo, a coragem de se «devir quem se é» (Nietzsche), desdenhando a massificação da vida humana, Michel é chamado a escolher. A tranquilidade ou a exaltação. A cobardia do comodismo em rebanho ou a nobreza do singular - eis, na sua lógica, os termos em que se pensa o dilema.

O mesmo discreto pudor vela o crime, o acto radical - núcleo do romance - em que esta escolha se resolverá. Não assistimos ao acto; não se nos narra senão o antes e o imediatamente após. Na ausência de deliberações ou comentários do narrador, podemos interrogar-nos sobre que intenção moveu o protagonista, se a piedade, se o egoísmo. Fechamos o livro como sobre um segredo que permanecerá, ainda, por revelar.
   

segunda-feira, 24 de abril de 2017

BRUNO VIEIRA AMARAL: AS PRIMEIRAS COISAS



É mais forte do que eu. Confesso. Mistura de inveja e ressentimento. Confesso. Mas de cada vez que tenho nas mãos um romance premiado em algum concurso literário português, folheio-o sob o impulso de um cepticismo mesquinho, qualquer coisa que soaria, digamos assim, como: Ora então vamos lá ver o que tem este livro de singular e, afinal, de tão bom que o tornou premiável.

Das vezes que me lembro, havia efectivamente algo interessante e suficiente para desfazer a hipótese de uma vitória movida a cunhas, ou superar a ideia do mero gosto subjectivo dos jurados: posso, de repente, recordar os prémios de João Ricardo Pedro, Afonso Reis Cabral e, claro, Afonso Cruz.

Quanto a Bruno Vieira Amaral (Prémio José Saramago 2015): ainda numa livraria, desconfiei do que a sinopse prometia, não me deixando igualmente convencer pela primeira página. Mas ao lê-lo, já em casa, fui aceitando que me cativasse — vagarosamente, nunca se tratou de uma sedução urgente: nada de uma rapidinha —, e reconheço que o romance principia a capturar-nos por causa da sua atraente flexibilidade, como o exercício de um flâneur, ou seja, uma divagação em que não sobressai qualquer estrutura, que no entanto está lá, invisível porém sólida - a qual, se, por um lado, orienta coerentemente a história, que, de resto, mais do que uma narrativa em sentido estrito, funciona como um dicionário de situações, por outro lado (daí a sua invisibilidade), não condiciona esse modo de contar, ilusoriamente espontâneo e distraído, imerso em sinuosos, contínuos e maravilhosos associações e pormenores. A estrutura é, afinal, o Bairro Amélia. E esta maneira de o expor é a forma justa para descrever o estado de espírito do narrador. O carácter errático dos seus dias. E a visita que um Virgílio contemporâneo, à imagem do Virgílio que guia Dante pelos círculos do inferno, lhe permitirá fazer às histórias antigas do bairro. Algumas delas são singelas e breves, meia página, uma página. Outras, mais extensas, desenham personagens extraordinárias. Os fios são, repito, o bairro e, sobretudo, um narrador que se refaz em cada dia:

«Era como se, a cada dia, a minha vida se reiniciasse, como se não houvesse qualquer sequência entre um dia e outro. Como se o único ponto de união fosse eu, mas eu fosse outro todos os dias, guiado por intenções inconsequentes, quando não contraditórias.»

Não é certamente uma obra que retenhamos pela qualidade poética da linguagem. Refiro-o apenas porque, para mim, como leitor, a riqueza da escrita não é um aspecto despiciendo, e sim preponderante na fruição de um romance. Mas retemo-lo pela atenção a detalhes tão simples e fortes como o facto de o Correio da Manhã e jornais desportivos serem os únicos que podemos ler em qualquer café; ou observações tão verosímeis e palpitantes como a de um indiano que, numa biblioteca,  consumia, habitualmente, um jornal, com a minúcia (e demora) de uma Testemunha de Jeová devorando a Bíblia; ou a de uma mulher que furtava rosas de um jardim, cortando-as com um corta-unhas; ou ainda a referência à inscrição estampada na t-shirt vestida por um velho (I Semana Multicultural do Bairro Amélia). Estas "cenas", simples e reconhecíveis, muitas delas associadas a pormenores típicos do Portugal dos anos 80, constituem o que nos conduz a testemunhar, quase em estado de assombro, a criação dessa magnífica, inesquecível, personagem-colectiva que é o Bairro Amélia — e a sua evolução, ou, em parte, estagnação, desde a infância do narrador, que julgou haver-se libertado dele para sempre, até ao seu regresso, anos volvidos, deprimido e sem alternativas, após tremendos tombos na sua vida "lá fora".

É um romance muito belo, muito irónico, muito culto e pungente; lemo-lo como se estivéssemos passeando e observando o próprio bairro, e o Teixeira, o Abel, a Carla, a Vera, o Virgílio - ou, obviamente, o Fion - e de todos eles fizéssemos (e ao mesmo tempo não fizéssemos, meros estrangeiros atentos que ali somos) parte das vidas decantadas pelo narrador, entre o mundo da memória e o do presente. Tudo isto é:  e portanto, é também, claro, um prémio justíssimo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

STEFAN ZWEIG: JOSÉ FOUCHÉ



Provavelmente, foi escrever sobre o Barão Corvo que me trouxe à memória um livro interessantíssimo, de Stefan Zweig, que tenho discutido com meu irmão se lho emprestei, se o perdi, se simplesmente se encontra fora de vista, entre outros livros meus, mal arrumado.
Não sei bem por que razão estas figuras da vida e da História me perturbam tanto. O padrão é: homens inteligentíssimos e de enorme criatividade, mas sem escrúpulos absolutamente nenhuns. Talleyrand seria o meu predilecto (?), porque, evidentemente, a todos estes elementos acrescenta uma verve e uma ironia que se traduziram em frases e epigramas de uma acutilância e de um sentido de humor cruéis. Mantenho com tais personagens uma pérfida relação de admiração-ódio, que só um psicólogo experiente conseguiria explicar.

A capacidade de sobrevivência de Fouché é digna de menção. E, como parte dela, a sua leitura imediata dos acontecimentos e o seu sentido de antecipação: foi um jacobino ferrenho, que conspirou contra Robespierre assim que percebeu que este principiara a retirar-lhe a confiança.  (Tratando-se de Robespierre, não era preciso ser-se um Fouché para se intuir como terminaria o alastrar da suspeita). Guilhotinado aquele, Fouché começaria, em breve, a conspirar contra os conspiradores, porque  também estes mostravam reservas (ironicamente, por causa da sua primitiva ligação a Robespierre). Foi, mais tarde, ministro de Napoleão. Conspirou contra o corso quando o prenderam, mas o próprio o recuperou, ao escapar da ilha de Elba e ao formar o célebre governo dos 100 dias.

Aliás, a este propósito, meu irmão conta-me a história dos 3 sucessivos títulos de um jornal apoiado por Talleyrand, aquando da fuga de Bonaparte. Primeiro: «O Assassino em Fuga»; segundo: «Napoleão Aproxima-se». Terceiro: «O Imperador Voltou». É este espírito, comum às duas raposas velhas, Fouché e Talleyrand, poderosos ministros de todos os governos que passavam, revolucionários e contra-revolucionários, anti-monárquicos e monárquicos novamente, que faz da sua facilidade em trocar de camisa, uma espécie de arte, que desprezamos e contudo nos fascina. Às críticas, Talleyrand retorquiu, com toda a sua soberba e cinismo: "À minha volta é que tudo muda. Eu sou o único que sempre se manteve igual a si próprio."

Zweig, como sempre, é magistral na composição do retrato psicológico da pessoa. Mostra o dinamismo camaleónico de José Fouché como o efeito de uma ausência de vincos de carácter demasiado marcados ou marcantes, um deliberado apagamento de si, uma fuga a toda a luz: o seu génio movia-se unicamente na sombra. Fez dos bastidores o seu habitat, nisso, antiético do rival Talleyrand, que em todo o lado brilhava sem esforço. Fouché evitou sempre as reuniões ou os comícios onde se esperaria que interviesse; não precisava de aparecer para reivindicar publicamente os louros das suas próprias jogadas. Manobrou como a serpente. Teve nas mãos, em diversas fases, um poder imenso. Usou e abusou sem piedade do seu poder. Sem piedade nem remorsos, sem ideologia nem princípios que não o de manter-se à tona. Ou melhor: não propriamente à superfície, mas sob a superfície, onde o não vissem, e de onde tudo e todos via.

terça-feira, 11 de abril de 2017

FR. ROLFE (BARON CORVO): HADRIAN THE SEVENTH



The Quest for Corvo, se bem se lembram, é o título de uma biografia que me deixou estupefacto com o seu objecto: o homem que se auto-denominava Barão Corvo, cuja genialidade perversa revela um narcisista de rostos múltiplos, intratável, inadaptado, embusteiro, e que escreveu, entre muitas obras, Hadrian the Seventh. A. J. A. Symons, autor da biografia, interessou-se pela figura graças precisamente a esse romance, que lhe caíra casualmente sob os olhos, e de que descreve, deste modo, o início: 

«O proémio apresenta George Arthur Rose esforçando-se em vão por trabalhar, quase prostrado com a dor de um braço, no vigésimo dia após uma vacinação. O seu trabalho é a escrita; e pela detalhada descrição subsequente dos seus pertences e do ambiente, torna-se tão credível como claro que este pobre, só e misantrópico sofredor, num quarto-cama suburbano, é um homem notável e um autor em luta. Há muitas personagens na literatura destinadas a imprimir uma tal convicção no espírito do leitor; muito poucas o conseguem.» A conclusão, naturalmente, é que, ao contrário de tantos, Rolfe consegue imprimir essa convicção. E porquê? Por causa do seu talento, sem dúvida. Mas, sobretudo, se «este homem recebe instantaneamente vida nas páginas de Fr. Rolfe», isso sucede «pela melhor de todas as razões (como descobri mais tarde): porque ele era o próprio Fr. Rolfe

Leio Hadrian the Seventh e... como? Ai não vo-lo tinha dito? Peço perdão, estou muito excitado. Recebi, finalmente, a encomenda, após meses de espera. Não terminei ainda a leitura, mas vou rascunhando estas notas à medida que progrido, e tê-la-ei concluído no momento em que publique o presente post. O proémio é tão interessante como prometido: os vívidos pormenores do quarto arrendado, onde George Arthur Rose, esfaimado e deprimido, vive com o seu gato, numa permanente angústia, constituem um mundo concreto, que respira. Vemos o quarto; lemos, sobre o ombro do misantropo, os artigos da actualidade que lhe interessam no jornal do dia, à medida que ele conta, maniacamente, os  verbos no infinito e almoça uma parca sopa; vemos o seu caderno de transcrições, numa escrita arcaica; o dicionário pessoal de expressões latinas e gregas, com as quais enriquece a sua prosa em inglês; ou os livros que pede emprestado à senhoria, e consome enfastiadamente, ao mesmo tempo que enrola e fuma (fá-lo constantemente) o seu precioso tabaco.

A inesperada e inquietante visita dos dois ilustres prelados é absolutamente central, por muitos motivos. Antes de mais, mostra-nos de que forma uma situação extremamente implausível vai conquistando toda a credibilidade, ao longo e mercê de uma conversa eléctrica, sob o signo do profundo ressentimento de George Arthur Rose e do sentido de remorso e de justiça de Sua Eminência: é um diálogo perpassado de queixas, paradoxos brilhantes, reflexões sobre a condição humana e a vocação divina da igreja, e de improbabilidades que se vão tornando aceitáveis e consistentes. Propõem-lhe, 20 anos após haverem-no rejeitado, a admissão, como sacerdote, no seio da igreja católica. Sim: vêm para pedir desculpa e reparar a injustiça. Por outro lado, seguimos, como quem escuta depois à porta, a discussão entre os dois visitantes acerca da visita que vieram de fazer, e do homem que os recebeu. É uma análise surpreendente, como se o autor (que é, afinal, o próprio protagonista) saísse de si para, pela voz dos prelados, se olhar imparcialmente, sem medo de reconhecer a sua excentricidade e o tom artificial, de teatro, presente no modo como se dirigira às eminentes visitas e estas, entre si, criticam.

Existe uma neurótica mudança de,  como agora se diz, "registo", e todos os registos são assombrosos. Da já mencionada descrição de ambientes e estados psicológicos, para os extensos artigos de jornal, sobre a situação na Rússia ou sobre o Conclave em Roma, dos diálogos vertiginosos, à Oscar Wilde, para a demorada e fascinante confissão de George Arthur Rose, que é um ensaio de psicologia sobre a relação amorosa do homem consigo, com o próximo e com Deus, ou mesmo da observação minuciosa, e penso que correcta em todos os pormenores, das intrigas que subjazem ao processo de votação que elegerá o Papa, passando pelas críticas venenosas aos jornalistas e às razões da sua ignorância, em todos os quadros e através de uma superabundância de meios, a obra de Barão Corvo contém um poder desigual mas sempre enorme e magnético. Já agora, convém acrescentar que a escolha do pobre George Arthur Rose para Papa, é bem menos convincente, ainda que decorra de uma situação fascinante, e engenhosamente concebida.
Resta perguntar: de todos os argumentos para justificar e explicar os actos de George Arthur Rose/ Fr. Rolfe, até que parte crê o próprio, esse intrigante Barão Corvo? Até que ponto vê, de facto, nos outros, os malfeitores e os inimigos, e, em si, a contínua vítima de homens falsos, "amigos" traiçoeiros e maldosos? A resposta do seu biógrafo é: crê piamente na sua versão. A isto se chama, é claro, paranóia. Sempre considerei que, justamente, a paranóia é uma eficaz oficina de ficção.

sábado, 8 de abril de 2017

GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ: O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERA


Ainda que Cem Anos de Solidão, lido durante uma juventude desesperadamente romântica, tenha sido um romance que me submergiu torrencialmente, por alguma (infundada) razão acabei definindo Gabriel Garcia Márquez, no geral, como um autor menor. Preconceitos que nos engasgam: talvez o motivo fosse uma persistente comparação entre ele e Mario Vargas Llosa, formada já numa fase muito posterior à da leitura que tanto me preenchera, fase essa em que: 1) procurava há muito um certo livro de Llosa e não o achava em livraria alguma, enquanto a obra de Márquez invadia  todas as prateleiras 2) a truculência reaccionária de MVL  exercia sobre mim um estranho fascínio, em face do qual GGM representava o papel de intelectual morno e «politicamente correcto».

Descubro, agora, O Amor em Tempos de Cólera, e percebo o calibre da minha injustiça. A mão de Márquez é genial. A fulgurante construção da narrativa, a novidade e a beleza das imagens, a cultura que permite a reconstituição da época, revelam um Autor Maior; reconheço, de certa forma, aquela escrita. É-me familiar: vou recordando, através dela, o engenho e a imaginação que já me haviam encantado em Cem Anos de Solidão, que aparentemente tinha esquecido.

O Amor em Tempos de Cólera é a história de um amor tenaz, obsessivo como uma vocação ou um destino. Trata a paixão de um jovem sem pedigree, Florentino Ariza, por Fermina Daza, uma rapariga bela e altiva, a filha de um homem rico mas pouco instruído, o qual, precisamente por essa razão, aspira a que ela ascenda, por via do casamento, a um ambicionado estatuto na sociedade. Ariza, o poeta, nunca desistirá: nem de lhe fazer uma corte longa e sem sucesso; nem (quando ela finalmente lhe aceita o namoro), perante a ameaça do pai, que, a seguir, a levará a viajar, para que ela o esqueça de vez. Nem mesmo, pior do que tudo isso, quando a própria Fermina Daza, regressando da sua viagem, o reencontra, afinal fisicamente medíocre, sem qualquer luz ou magnetismo, e o rejeita, cruelmente, pela segunda vez. Ou sequer quando, algum tempo após, ela principia o namoro com um jovem e pretendido médico, o Dr. Juvenal Urbino, com quem se casará, partirá para uma demorada lua-de-mel europeia, e de quem, por fim, engravidará.

 A fluidez da estrutura contagia-nos o estado de espírito: personagens que parecem fundamentais, mas se vão de nós, e personagens que julgamos secundárias, até que abrem um percurso principal da história; episódios que diríamos fixar o contexto central, quando, na verdade, são apenas a ligação para outros contextos, outros ramos do todo. É água a correr sob os nossos olhos: o suicídio, o xadrez, manias, família, ambições, chantagem, viagens, tragédias, o ridículo, a perda, o perdão e o imperdão, a música, o amor, o desamor e diferentes ou até opostas formas de fidelidade, não cessam de correr com tamanho ímpeto e tal leveza, que mal nos apercebemos de que a estas quase 400 páginas subjaz um organismo maravilhosa e milimetricamente concebido.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

GILBERT CESBRON: OS SANTOS VÃO PARA O INFERNO


«Crescer é tornar-se infiel.»
Gilbert Cesbron, É Mozart que Assassinam

Tenho andado em maré de recordações literárias. Os livros que trouxe das estantes de meu irmão, ou os que lia em adolescente, por exemplo Enid Blyton e Júlio Verne, ou os que me marcaram como um ritual de iniciação ao tempo de leitor adulto. Curiosamente, no meio desse processo, houve uma bizarra, nebulosa e inexplicável paixão que me guiou, sei lá! diria que pelos 15 ou 16 anos. De onde me saiu a primeira obra de Gilbert Cesbron, sou incapaz de precisar: alguém a emprestara a minha mãe? A meu irmão? E qual era? Os Santos Vão para o Inferno, sobre a infernal vida dos padres-operário? Ou aquele, cujo título não recordo, acerca de uma elegante jovem de facies horroroso? Outra pergunta: porque me terá fascinado a tal ponto essa série de romances da autoria de um escritor católico francês? Nunca mais voltei a pensar nele. Alguma associação, há pouco, mo devolveu subitamente à memória.
Desse contacto incompreensível, retenho, agora, quatro coisas: o prazer dessa leitura; um episódio particular de um dos seus romances: um jovem que se preparou diligentemente para copiar num exame, ordenando, diante do espelho, as cábulas em diversos departamentos de um casaco "especial" - fintado pelo pormenor de as estar a colocar perante um espelho, que inverteria a direita e a esquerda, confundindo-o completamente no momento-chave (o momento do exame, claro); outro episódio, que já aliás mencionei: uma rapariga muitíssimo feia, procurada por uma colega que, ao dar-se com ela, realça a própria quase-beleza; e, last but not least, uma particularíssima utilização dos parênteses, a que me rendi de todo, maravilhado pelos efeitos, e que não tenho dúvida de que ainda hoje imito, embora nunca mais me tivesse lembrado da génese de tal influência. Gilbert Cesbron foi ultrapassado pelo tempo, por novos interesses, descobertas e fascínios maiores. Tornei-me ingrato e infiel ao que me concedeu. Mas, como afirma o próprio: que mais significa crescer senão isso?

sexta-feira, 3 de março de 2017

ALDOUS HUXLEY: A ILHA


O quarto de meu irmão 11 anos mais velho do que eu, no apartamento onde vivíamos, em Lourenço Marques, era, para mim, a caverna de Ali Babá. Para entrar como visitante clandestino, o "Abre-te Sésamo" reduzia-se a que o mano se tivesse ausentado. Havia um barco telecomandado; havia misteriosos mapas do mundo; havia uma colecção de soldadinhos de plástico, não de chumbo, que eu me entretinha pondo-os a guerrear uns contra os outros, sobre um dos mapas, para que invadissem ou defendessem fronteiras; porta-chaves [mas talvez esteja equivocado: a deliciosa colecção de porta-chaves podia estar em outra casa, quase em outra vida]; umas folhas onde colegas dele haviam desenhado a sua caricatura, ao lado de uns poemas bem-dispostos, alusivos a certa ida à praia do Tofo. E livros. O Idiota, que foi o meu primeiro Dostoievski, O Músico Cego, de um contemporâneo russo, talvez O Admirável Mundo Novo mas não posso jurar, alguma coisa de Papini, O Homem, de Irving Wallace, O Desprezo, de Moravia, O Livro de San-Michele. Lembro-me destes.

Ora li há pouco, numa revista, alguma referência a determinada obra de Huxley, reeditada recentemente como um romance distópico. Interessei-me, cheguei a procurá-lo por livrarias. Não o achei. Entretanto, por mero acaso, vasculhando nas minhas próprias estantes, apercebi-me, perplexo e eufórico, de que o possuía - A Ilha, numa edição "Livros do Brasil", com uma dedicatória escrita pela amiga que o oferecera, em 1967. Pois. Entenderam tudo: trouxe-o, entre muitos outros livros, da biblioteca de meu irmão, a saudosa caverna de Ali Babá em que me iniciei na prática de tantos espantos. Mais: recordo-me perfeitamente de o haver lido. A avaliar pela data, bem jovem. Releio-o agora, ansioso por descobrir em que medida a narrativa se me vai revelando, na forma de um conhecimento antigo como o mundo, recalcado mas de alguma maneira familiar, pronto a despertar, a reemergir, a regressar, a devolver-se-me. Esta leitura, perdão, esta re-leitura é, pois, em si, uma experiência maravilhosa.  

O início do texto é poderoso. Mesmo inesquecível - salvo que eu o esquecera completamente; devo acrescentar que, juntamente com o incipit de A Condição Humana, de Malraux - outra re-leitura, minha, por estes dias -, o começo de A Ilha demonstra a mestria fulgurante do autor: a situação incompreensível que nos agarra de imediato, a estranheza de uma floresta circundante que o protagonista, acordando de um desmaio, não reconhece nem entende, esse ambiente pontuado por uma voz de comando que, vinda de algures, retoma ciclicamente as mesmas palavras, são elementos que introduzem simultaneamente o enigma e um suspense avassaladores.

Curiosamente, adiante, narra-se o episódio do encontro de Will com duas crianças nativas, falando todavia um inglês perfeito, e de súbito a memória salva-se aos escombros para vir respirar ar puro: toco, hoje, precisamente na mesma dúvida que me havia já assaltado então: quando a menina insiste com o náufrago para que descreva o pânico experimentado em face das serpentes que podiam tê-lo matado, e o conte uma outra vez, e mais uma, até que, por força do repetir da história e da sua banalização, as emoções que lhe estão associadas se diluam e desapareçam, duvido de novo que uma garota fosse capaz de dominar uma tal técnica.

Depois, mais adiante, tropeço em outros momentos familiares. A descrição das personagens é sempre muito viva: Sua Alteza ou o jovem príncipe são indivíduos extraordinários, nos paradoxos de uma inocência incapaz de adivinhar os males contidos nos seus projectos. É interessante, aliás, que tratando-se de um romance engagé, não se esvazie da riqueza narrativa ou da subtileza dos pormenores em prol da tese que visa ilustrar.

Porque, francamente, que é uma obra de tese, é. Como, aliás, tudo quanto, praticamente, Aldous Huxley escreveu: romances sobre o sacrifício da natureza e do elemento natural no homem, asfixiados por sociedades artificiais, subjugadas à lógica de uma super-industrialização que, destinada a beneficiar os indivíduos, cedo se torna no princípio da sua mecanização e da sua infelicidade. Um pesadelo. Todos os seus romances - e este não é excepção - abrem oportunidades a longas digressões que são autênticos tratados de filosofia, psicologia, sociologia.

Mas que, por outro lado, a arte de narrar nunca se degrada por esse motivo, nem a criação de personagens profundas, com inúmeras e contraditórias camadas, também é verdade.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

SIMONE DE BEAUVOIR: MEMÓRIAS DE UMA MENINA BEM-COMPORTADA


Às vezes tropeço em mim a pensar que ninguém se conhece realmente a si próprio. E a concordar com Nietzsche, que cito de memória: conhecer-se é o mais difícil tipo de conhecimento. Daí que, em última análise, as memórias tenham sempre uma parte de involuntária ficção. As recordações são interpretações, e há que suspeitar do modo como nos explicamos a posteriori.

Em nenhum livro isso me pareceu tão evidente como em Memórias de Uma Menina Bem-comportada. As razões que a filósofa atribui, anos volvidos, aos comportamentos da criança de 4 ou 5 anos que ela foi justificam tanto tais comportamentos, como, inversamente, e olhados a essa luz, tais comportamentos servem para justificar antecipadanente a sua teoria filosófica. É um círculo vicioso. Onde descreve birras e zangas perfeitamente inaceitáveis, que, se eu a elas tivesse assistido, me fariam comentar «raios! mas que garota tão mal-criada», Simone de Beauvoir detecta profundas razões existenciais, uma surda indignação da menina contra a sem-razão das regras do mundo [em que não vê nenhuma necessidade, tão-só a arbitrariedade] ou a revolta contra a sistemática representação de papéis pelos adultos quando lidam com as crianças.

«Foi por isso que resisti vivamente quando a avó me quis ensinar as notas musicais. Ela indicava com uma agulha de tricotar as bolas inscritas na pauta; tal linha equivalia, dizia ela, a tal nota no piano. Porquê? Como? Eu não via nada de comum entre o papel e o teclado. Quando pretendiam impor-me regras injustificadas, revoltava-me; da mesma maneira recusava as verdades que não eram reflexo de um absoluto. Só queria ceder à necessidade; as decisões humanas eram causadas mais ou menos por caprichos, não tinham suficiente peso para forçar a minha adesão.»

Os existencialistas tomam, quase por princípio, a consciência infantil como uma fonte de escolhas com profundas implicações filosóficas. É sempre nesse contexto filosófico que recordam as crianças que foram. As Palavras, de Sartre, que nem por isso deixa de ser um livro interessantíssimo, ilustra o mesmo pecado, que consistiria em apresentar todas as escolhas infantis como precoces decisões éticas, sob o peso esmagador de uma reflexão acerca da condição humana. Pode ser que eles estejam certos, e eu não. Pode até ser que eu alimente esse preconceito, relativamente às crianças, de que S. de B. fala, e tenda a vê-las como seres incompletos, senão como «coisas».

Em todo o caso, o brilho que nos cativa nestas memórias é o de um tempo já tão longínquo de nós, representado mais através de deliciosas irrelevâncias do que de grandiosas movimentações da história e da política. Reencontrar o tempo perdido (e sim, há um deliberado tom proustiano nesta obra), tratando de coleccionar fragmentos efémeros, sons, sabores, cheiros, visões, modos, tiques, lugares, é um processo melancólico, mas irresistível. Os bolinhos de areia que a criança fazia, um martelinho de alcaçuz, uma écharpe de musselina verde, da mãe, as silhuetas e as vozes dos pais, discutindo, as patilhas brancas e o boné do avô paterno, as flores do jardim deste, a colecção de cartões com duas fotografias que o estereoscópio transformava numa imagem a três dimensões, ou álbuns que se «animavam ao toque do polegar», o carro puxado por cavalos, e cujos bancos cheiravam a pó e a sol. E, entre todas estas fulgurações, a emergência da importância e do poder das palavras (precisamente como em Sartre) ou a importância e o poder da linguagem - a qual, primeiramente, se revela enganadora, porque acreditamos que «recobre exactamente a realidade», como se entre a palavra e o seu objecto se não concebesse «distância alguma onde o erro pudesse imiscuir-se»; mas que vai, aos poucos, ganhando os contornos de um instrumento subtil e flexível, que nos ensina a pensar, no gume da dúvida e de uma distância em relação a toda a realidade.
    

Por que razão o título sugere como bem-comportada esta menina que, no desfiar das memórias, nos aparece como tendo um feitio difícil, acessos bruscos de mau-humor, capaz de convulsões de irritação perante as quais os adultos se mostram impotentes? Boa pergunta. O equívoco deve-se, porventura, à tradução. Não sei como verter para português, numa única palavra, o "rangée" de Mémoires d'une Jeune Fille Rangée, mas não significa propriamente "bem-comportada": antes enquadrada (a ideia é mais essa), ajustada às ideias e aos valores do meio burguês em que nasceu e foi educada. E portanto este livro é, também - ou: é, principalmente - o reconstituir de uma desconstrução que a autora foi fazendo ao longo da sua vida, ou de uma desaprendizagem: a progressiva autonomia entendida como libertação relativamente a um modelo de vida, a uma ordem burguesa em que circula a má-fé.

Nesse sentido, é claro, os desaforos da menina seriam já salutares episódios de revolta. Porque se o seu mundo parece sereno e indubitável a maior parte do tempo, pelos interstícios da serenidade burguesa emergem pontos de fuga para o temível, para o infinito, para o caótico. «Por vezes um rasgão deixava entrever por detrás da tela pintada profundidades confusas». E não só a Primeira Grande Guerra, que eclode ainda durante a sua infância, mas, no dia-a-dia, a secreta percepção da instabilidade. Mesmo o Jardim do Luxemburgo, onde brincava amiúde, está longe de uma completa domesticação, com as suas «moitas intocáveis» e «relvas proibidas». São profundidades confusas, tais como os túneis de metro, que lhe pareciam fugir para o infinito, em «direcção ao coração secreto da terra», ou como um depósito de carvão, no Boulevard Montparnasse, de onde saíam homens de rostos mascarrados, e com sacas de serapilheira enfiadas na cabeça.

Em tal medida, como afirma Hegel, escolhemos o nosso próprio passado. Ou seja, interpretamo-lo como um projecto que nos anunciava desde o início - e justificaria, em potência, a nossa actual visão do mundo e a nossa filosofia.    


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

BALZAC: O TIO GORIOT


A universalidade de uma obra não se funda certamente em que ela haja sido criada fora do tempo e da história, no seio de uma espécie de mundo inteligível, não sujeito à mudança nem à corrupção. Deve-se a que um autor genial, influenciado pelo seu meio e pela sua época, até pelos tiques da moda, tenha conseguido usá-los como meios para produzir o que se não esgota nestes, mas os supera, e permanecerá para além deles.

Veja-se Balzac. Analisemos a sua escrita. É um modo de escrever «datado». Hoje, que o cuidado descritivo parece ter perdido o valor, que os jovens o repudiam e todos nós dele nos fomos desabituando, hélas!, ler um romance como O Tio Goriot significa, antes de mais, e desde as primeiras páginas, submergir num preciosismo da descrição, uma tessitura requintada, que tenta dar a ver à imaginação do leitor a pensão da senhora Vauquer, geograficamente, situando-a com pormenor na «Rua Neuve-Sainte-Geneviève», entre «o Bairro Latino e o Bairro Saint Marceau», ou económica, social, arquitectónica esteticamente, apresentando-a na sua degradação, no seu isolamento, na sua pouca limpeza, nas suas cores, nos seus cheiros, no cafarnaum de móveis, cortinados e bibelôs que a preenchem. Mas não ficamos por aqui. Ainda nada sucedeu diante dos nossos olhos, e são expostos os retratos psicológicos dos diversos ocupantes dos vários quartos da pensão. O papel e o estatuto sociais de cada um, traduzidos, em última análise, no tipo de quarto em que se instala e na renda estipulada.

Pode parecer vão e entediante, se não estivermos atentos ao facto de como, nesta descrição detalhada e exaustiva, se ilustra um microcosmo no interior de um cosmos que é a cidade de Paris do século XIX. O que faz a universalidade da obra de Balzac é, pois, primeiramente a forma como se capta a realidade de certa época segundo a visão de um artista que é, simultaneamente, um historiador, um sociólogo, um psicólogo, um economista e um filósofo; e, por outro lado, o modo como, apreendendo multifacetadamente esse mundo multifacetado, se compreende o pathos humano no que este pode revelar de melhor e de pior. Só em I Promessi Sposi, de Manzoni, encontrei nos últimos anos esse poder para descrever um tempo transcendendo-o para alcançar na sua pureza a experiência mais autêntica e intemporal do amor, da cobardia, da generosidade e da mesquinhez.

Não é despiciendo que, para além de todos os conhecimentos de que Balzac se dota para escrever a sua obra, se mostre ainda tão perspicaz ao intuir a etiqueta na forma como as damas da aristocracia parisiense recebem: refiro-me a um conjunto de regras latentes, que só um fino observador detecta como reguladoras das suas conversas. Um exemplo: Rastignac, jovem estudante arrivista, obcecado por penetrar no perímetro da Alta Sociedade, vai visitar uma viscondessa, ligada a si por um vago e remoto galho da árvore genealógica, com o fito de que ela o esclareça [o jovem acabara de cometer, noutro lugar, uma gafe que nem sequer o próprio compreendera muito bem], e, sobretudo, o guiasse na desejada e penosa ascensão; enquanto se apresentam, é anunciada outra dama: uma duquesa. Esta entra. Afáveis, corteses uma com a outra, como se fizessem dele a testemunha de uma antiga amizade. O leitor, a par de antecedentes que o jovem desconhece, apercebe-se imediatamente da duplicidade hipócrita do diálogo que se trava entre elas; entende como, sob a aparência de uma inocente e agradável troca de palavras, as duas mulheres se alfinetam perfidamente. Oferecem-se mútuas informações que poderiam passar por mera fofoca, se não soubéssemos que ambas estão conscientes de que o conhecimento que ali partilham se destina a magoar a outra. A maneira, contudo, como procedem, segundo um ritual bem treinado e consolidado, de limites perfeitamente estabelecidos, onde nunca se perde a compostura, e se utiliza o rosto do elogio para mascarar as intenções mais viperinas, é toda uma arte - em que Eugénio de Rastignac terá de se educar.

Esta é a comédia humana, em que as diferentes pessoas vão revelando de si surpreendentes ângulos, consoante o lugar que o engenho e a sorte lhes oferecem. Rastignac ou Goriot não são absolutamente maus nem absolutamente bons. O mais íntimo deles, ora vil, ora ingénuo, ora de uma inesperada grandeza, vai sendo exposto, em função de condições aleatórias mais do que propriamente de estratégias decididas. Embora algumas personagens planeiem a vida. A carta que Rastignac escreve à mãe e às irmãs, chorando por dinheiro, que sabe que só com sacrifício reunirão, é abjecta. As lágrimas e os remorsos com que lê a resposta não deixam de nos tocar. Goriot, que pagava inicialmente «mil e duzentos francos de pensão», que se «munira de um guarda-roupa bem fornecido, um magnífico enxoval de negociante que não se priva de coisa nenhuma ao retirar-se do comércio», com a «sua pesada corrente de ouro guarnecida de berloques» ou a sua «tabaqueira de ouro», foi-se transformando, por amor das filhas que o desprezam, num homem sem nada, enxovalhado por todos, triste e soturno. Herói e anti-herói, sublime e miserável, arrastado para a situação trágica que os demais lêem como cómica, foi sempre, no fundo, um simplório, um medíocre - embora o seu coração albergasse dois sentimentos sublimes: pela esposa, de que enviuvou, e pelas filhas. É por tudo isto que a obra de Balzac é universal: no concreto de cada indivíduo e da sua circunstância, aprendemos a ler o próprio Homem.

 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A.J.A. SYMONS: THE QUEST FOR CORVO, An Experiment in Biography


O tio Drosselmeyer, padrinho de Clara, é o relojoeiro com misteriosos poderes mágicos (um dos quais seria, parece, o de conceder vida aos brinquedos: oferece-lhe, aliás, o Quebra-nozes...), que surge não se sabe de onde, durante uma festa, transformando o tempo das crianças num momento exaltante, para desaparecer, sabe-se lá para onde, até porventura uma próxima festa.

É desta personagem de O Quebra-nozes que me lembro, quando meu primo, tão frequentemente referido no Profissão: Leitor [alguém me perguntava, outro dia, se um tal primo existe mesmo, ou é uma fantasia minha] quando meu primo, dizia eu, regressa de férias a Portugal , produz as suas maravilhosas operações de feitiçaria, e a seguir retoma as viagens para distantes paragens. As operações mágicas ganham, geralmente, a forma de conversas e de livros. Este Natal, recebi, dele, o Ruskin, traduzido e abundantemente comentado por Proust. Tem de ser magia. Mas não se ficou por aí: deleito-me agora, também graças a meu primo, com uma estranha biografia sobre um mui bizarro sujeito, de cuja vida e obra eu não tinha sequer o menor conhecimento. Frederick Rolfe, auto-designado Barão Corvo.  

O livro é antigo. Pertencera a meu tio que, ao que descubro, o leu e sublinhou apaixonadamente. A.J.A. Symons, autor, faz nesta obra algo que me soa absolutamente original em matéria de biografia.

O início é este:

«A minha pesquisa sobre Corvo começou por acaso num verão, à tarde, em 1925, na companhia de Cristopher Millard. Estávamos preguiçosamente sentados no seu jardinzinho, falando acerca de livros que não conheceram a merecida recompensa no que respeita à apreciação e à influência. Mencionei Wylder's Hand, de Le Fanu, uma obra-prima de construção, e as Fábulas Fantásticas de Ambrose Pierce. Após uma pausa, sem comentar os meus exemplos, Millard perguntou: "Já leu Hadrian o Sétimo?"»

«O início é este», escrevi. O início, tanto da biografia, como na medida em que o episódio aqui relatado será o ponto de partida para a pesquisa que Symons empreenderia: Millard emprestou-lhe Hadrian VII e, na leitura desse romance o biógrafo descortina a intensa presença de Fr. Rolfe, escritor de um talento sublime, cujas personagens sentem, pensam, e falam com uma vivacidade impressionante. Como Cristopher Millard haveria de revelar mais tarde a Symons, a autenticidade dos caracteres do romance provém do facto de se basearem (brilhantemente, é certo) em pessoas de carne e osso, com as quais Rolfe terá convivido; o protagonista, George Arthur Rose, injustamente acusado, e expulso do seminário, impedido de se tornar sacerdote, é o próprio Rolfe. Com a reparação que, 20 anos depois, a igreja acabará fazendo da injustiça cometida contra a personagem George Rose [falamos de uma reparação ficcionada, portanto], acolhendo novamente no seu seio aquele que se tornará nada menos do que Papa [Adriano VII, precisamente] Rolfe imagina e regista a sua vingança contra todos os que o humilharam, perseguiram, acusaram e procuraram liquidar moralmente.  

A originalidade reside, pois, em que ao invés de lermos linearmente a história de Rolfe, acompanhamos a averiguação a que o biógrafo se devota. Estamos, portanto, face a um «problema», apresentado desta maneira: quem é o homem de enorme talento, que se oculta sob pseudónimos e títulos diversos, um dos quais, o de Barão Corvo, poderá nem ser autêntico? Depois do problema, a busca de pistas para a investigação. Symons começa uma fervorosa troca epistolar com diversos indivíduos que terão privado com Rolfe, muitos como seus amigos, vários como seus inimigos, e que, quase todos, inspiraram, de uma forma óbvio, as personagens de Hadrian VII.  Ora, que se obtém desta exaustiva e minuciosa correspondência? O vivíssimo retrato de um homem fascinante. Perguntei-me, algumas vezes, se não se trataria de uma peça de ficção travestida de biografia. Não. Qualquer rápida consulta do Google me garante o carácter real de Rolfe: homossexual sem quaisquer problemas em relação à sua homossexualidade (o que deveria ser raro numa época em que estes podiam ser condenados); de uma inquieta curiosidade, que o leva a dedicar-se à pintura, à fotografia, só mais tarde à escrita; inventor de engenhos, cuja concepção e planos acusa outras pessoas de lhe terem roubado; convertido ainda adolescente ao catolicismo; alimentando a obsessão de se tornar sacerdote, via essa que, efectivamente, lhe negaram; tendo vivido na mais terrível indigência; contraindo dívidas sobre dívidas, que justificaria com histórias mirabolantes e muito improváveis; sem amigos; caindo cada vez mais na paranóia de que o mundo inteira o incompreende e persegue; multiplicando cartas em que pede dinheiro - primeiro, muito dinheiro, alegadamente para investir em projectos, finalmente quantias como 5 £, para comer; insistindo sempre no seu estatuto de Barão, Frederick Rolfe é a figura extrema do charlatão genial. Ou do louco incapaz de distinguir entre fantasia e realidade. Ou de um exímio fabricante de embustes, para quem a mentira é, afinal, uma forma superior de Arte. Um autor maldito. Um autor bendito.

Conseguirei encontrar Hadrian VII?